Algumas notas sobre as peculiariedades da língua japonesa. Penso muitas vezes que aprender japonês me levou a ver o mundo com outros olhos. Quero partilhar aqui um pouco da minha experiência com o meu amado nihongo.

21
Jan 10

 Não conheço em japonês tantas formas de dizer "tu" (melhor dizendo, o pronome pessoal 2ª pessoa do singular) como "eu" mas elas não são assim tão poucas.  Ocorrem-me as de uso mais frequente, a começar por "anata", a de utilização mais comum e segura.  Recorremos a "anata" para nos dirigimos a outra pessoa quando temos com ela um grau de proximidade mínimo.  Tanto quer dizer "tu" como "você [o/a senhor(a)" como nas frases "Anata mo iku?" (tu também vais) ou "Anata mo ikimasu ka?" onde a utilização da forma "-masu" do verbo iku (ir) sugere alguma formalidade e o "você" que advém desta.

 

Quando o grau de formalidade é um pouco mais elevado evita-se o uso de um pronome pessoal e dá-se normalmente preferência ao uso do nome do interlocutor. "Suzuki san mo ikimasu ka?" seria pois mais respeitoso.  Lá como cá, "você é estrebaria" :-)

 

Se o nome do interlocutor não nos ocorrer podemos sempre recorrer ao uso da linguagem honorífica pois a escolha de uma forma honorífica de um verbo (keigo) indica de per si que o sujeito é o interlocutor que pode pois ser omitido.  Assim, o uso do da forma keigo "irassharu" do verbo "iku" permitiria dizer apenas "Irasshaimasu ka? dispensando pois o uso do nome ou de um pronome pessoal cuja escolha poderá ser sempre melindrosa.


Se nos dirigirmos a um desconhecido e a circunstância recomendar a não utilização de "anata", o pronome "sochira" é uma excelente escolha, bastante formal sem exageros honoríficos. "Sochira mo irasshaimasu ka." tem um grau muito equilibrado de cortesia e formalidade, desde que não implique esquecimento do nome do interlocutor.  "Sochira" é claramente um "o/a senhor(a)" sem qualquer cheirinho a "você".

 

A utilização da forma "o'takusama", extremamente formal e de utilização muito rara, deve ser feita com cuidado pois um exagero de formalidade pode ser interpretado como 慇懃無礼 "inginburei", um grau honorífico excessivo que revela mais distância entre nós e o nosso interlocutor que respeito por este, e é portanto insultuoso.  Cuidado pois com o extremamente, quiçá exageradamente polido "O'takusama mo irasshaimasu ka?". 

 

Quando o ambiente é mais relaxado, a palavra "kimi" é usda por homens e significa claramente "tu".  As mulheres não usam esta palavra e mesmo em ambiente informal dirão "anata" ou, se a proximidade com o interlocutor o permitir, "anta" que pode mesmo revelar intimidade.  Tímidas declarações de amor são por vezes apenas "Anta daisuki" (adoro-te) e aqui o uso de "anata" apontaria mais para "gostar muito" que para "amar".

 

"Kimi" é próximo, por vezes íntimo, e carinhoso.  Já "o'mae", que é usado apenas entre familiares ou amigos próximos, não contém em si o carinho de "kimi". "O'mae nani shiteru n'da?" (Mas que estás tu a fazer?) é bem mais duro que "Kimi nani wo shiteru no?" (Que estás a fazer?).

 

E por último, o uso de "temee", forma "rasca" do antigo "temae", é já claramente um insulto, daqueles que envolvem a virtude de mães e esposas :-) "Temee, wakaran kai" traduz-se literalmente por "tu não percebes?" mas soa aos ouvidos japoneses a algo muito próximo do que em português se diria "Não estás a perceber, cab...?".

 

Ao longo dos meus anos no Japão só uma vez usei "temee" e mesmo assim em resposta a impropérios de natureza semelhante :-) Um "cavalheiro", daqueles a quem faltam umas tantas falanges, sai de uma "banheira" americana branca de vidros fumados e perguntou-me num japonês de nível muito baixo porque não ia eu para casa (embora do Japão). Não resisti e lá tive de lhe responder "Temee ni kankee nee darrou.", algo como "hás-de ter muito a ver com isso meu cab.... da mer...!".  Sorte minha ir de bicicleta ;-) e... ah, ele ficou tão espantado com o (baixo) nível da minha linguagem que ficou por momentos sem reacção, dando-me tempo de montar e...  dar ao pedal?! :-)

 

Mas vejamos esta frase "hás-de ter muito a ver com isso", algumas formas como pode ser dita:

  • Temee ni kankee nee darrou.                                    ordinária
  • O'mae ni kankei nai darou.                                       dura
  • Kimi ni kankei nai deshou.                                         amigável
  • Anata ni kankei ga arimasen [nai deshou].                  polida
  • Sochira ni kankei ga gozaimasen.                               formal
  • O'takusama ni kankei ga gozaimasen [arumai (desu)].  inginburei

e notem como ligeiras variações nas outras palavras acompanham a escolha do pronome pessoal ;-)


Circunstancial....   sempre muito circunstancial o nosso nihongo :-)

 

 

 

publicado por Jaime Lebre às 01:00

20
Jan 10

Falei que quando usamos em japonês linguagem honorífica esta exprime respeito ou humildade do círculo interior em relação ao círculo exterior e que a regra de base da linguagem honorífica é que: referimo-nos com respeito quando falamos sobre o círculo exterior e com humildade quando falamos sobre o círculo interior.

 

Mas as coisas complicam-se se tivermos três círculos em questão. Imaginemos que me encontro numa recepção com dois presidentes de duas empresas diferentes.  Em conversa dirigir-me-ei a qualquer deles usando sonkeigo e kensongo conforme o sujeito da frase.  Se contudo tiver encontrado apenas um deles e me estiver a dirigir a este sobre o outro , a utilização de sonkeigo em relação ao presidente ausente pode implicar um insulto ao meu interlocutor.

 

Podem surgir situações muito complexas de grande melindre.  Em reunião de negócios com o presidente de outra companhia falarei sobre o presidente da minha usando kensongo pois estou a falar sobre o círuclo interior.  Mas se o meu presidente estiver presente isto poderá ser uma  falta de cortesia (shitsurei) em relação a este.  Terei de formular a frase por forma a exprimir a humildade do meu presidente (círculo interior) face ao meu interlocutor (círculo exterior) ao mesmo tempo que exprimo uma dose apropriada de respeito em ralação ao meu presidente, menor que a que exprimo em relação ao meu interlocutor (círculo exterior).

 

Um bom exemplo é a forma como o verbo "dizer" é usado.  A forma kensongo (humilde) de "iu" ou "yuu" (dizer) é "mousu".  Assim se eu quiser dizer "Conforme disse o nosso director..." a frase "uchi no shachou ga yutta you ni..." seria bastante rude pois não usa nem teineigo (forma "-masu") nem kensongo (reflectindo humildade do sujeito do círiculo interior).  Se dissesse "uchi no shachou ga iimashita you ni" a frase torna-se polida pelo recurso ao teineigo mas sem qualquer forma de kensongo poderá ser, conforme as circunstâncias, pouco respeitosa.  Se usar então a forma kensongo "uchi no shachou ga moushimashita you ni..." a humildade face ao interlocutor está correcta mas poderá ofender o meu presidente que pus desta forma ao meu nível.  O problema é que, se para elevar o status do meu director face a mim recorrer a sonkeigo e disser "uchi no shachou ga osshaimashita you ni..." (ossharu é a forma de sonkeigo de "iu" ou "yuu") estarei a elevar o meu director a um nível tão elevado como o do meu interlocutor e portanto a ferir o seu status de círiculo exterior. A solução é usar "mousareru",  forma passiva homorífica do kensongo "mousu".  Mostro assim o maior respeito em relação ao círculo exterior com a utilização da forma kensongo "mousu"  ao mesmo que, com a escolha da forma passiva honorífica, exprimo uma dose adequada de respeito também em relação ao meu director .

 

Todos dizem qualquer coisa mas 

  • eu "moushimasu"
  • o meu director "mousaremasu"
  • o meu interlocutor "osshaimasu"

Tudo para 天下が乱れない様に (tenka ga midarenai you ni).....    não perturbar a boa ordem das coisas.

 

Um leitor menos avisado poderá pensar; "Não, este gajo está a exagerar.  Isto na gramática é assim mas na práctica já não se usa nos dia de hoje." A incredulidade é natural mas asseguro que trabalhei algum tempo na área da diplomacia e não foram poucas as vezes em que tive de recorrer a este género de construçõe,s quando por exemplo falava com um Presidente de Cãmara sobre o nosso Embaixador.

 

Só para compor o ramalhete, deixem-me acrescentar que um verbo na sua forma sonkeigo ou kensongo pode estar também ou não na sua forma "-masu" (teineigo).  Por exemplo a forma sonkeigo de "yomu" (ler) será "o'yomi ni naru" e dizer para dizer "O professor lê o jornal todos os dias." em sonkeigo podemos dizer  "Sensei wa mainichi shinbun wo o'yomi ni naru."ou  "Sensei wa mainichi shinbun wo o'yomi ni narimasu.", juntando  nesta última frase a forma de teineigo "-masu" ao sonkeigo "o'yomi ni naru".  No primeiro a forma sonkeigo demonstra respeito pelo professor mas não pelo interlocutor.  Na segunda forma, a frase demonstra além do respeito pelo professor também cortesia para com o interlocutor.  Dois alunos, amigos um do outro, escolheriam a primeira forma se quisessem demonstrar respeito pelo professor (quando uma terceira pessoa próxima do professor está presente, por exemplo) mas dado o seu relacionamento próximo não usarian a forma teineigo "-masu".

 

De notar que na grande maioria dos casos um jovem que acabou de sair da universidade não se sabe exprimir correctamente em linguagem honorífica keigo de uso absolutamente obrigatório quando nos dirigimos a uma audiência.  Um jovem empregado da empresa onde eu estagiava baralhou-se de tal maneira que chegou a levantar coros de gargalhadas.  O pobre ficou cada vez mais confuso até que um "senpai" (colega mais velho) foi em seu socorro, mas não antes de ele já estar vermelhinho que nem um tomate maduro :-)

 

 

publicado por Jaime Lebre às 01:15

19
Jan 10

 O conceito de linguagem honorífica tende a fazer um pouco de confusão a nós Europeus que nos orgulhamos da nossa tradição de "Liberté, égalité, fraternité".  De algum modo custa-nos aceitar que vamos ter de nos dirigir a alguém usando uma linguagem que implica que o olhamos como nosso superior.  Esta reacção à linguagem honorífica leva a que muitos estrangeiros que estudam e falam Japonês nunca a dominem e tenham relutância em usá-la.  

 

A ideia que quando usamos uma forma honorífica estamos a tratar alguém como nosso superior é algo errada.  As formas honoríficas não definem superior versus inferior mas sim respeito ou humildade do círculo interior em relação ao círculo exterior.  Se por exemplo estiver a falar com um amigo sobre um meu irmão, o meu irmão pertence ao meu círculo interior (minha família) e o meu amigo ao círculo exterior.  Se mais tarde estiver a falar sobre este mesmo amigo a um colega de trabalho, o meu amigo pertencerá agora ao meu círculo interior ou exterior conforme de qual deles eu me quiser aproximar. A regra da linguagem honorífica é que referimo-nos com respeito quando falamos sobre o círculo exterior e com humildade quando falamos sobre o círculo interior.

 

Mas vejamos com mais detalhe. em Japonês há três estilos diferentes de linguagem honorífica (keigo):

  • Teineigo - que demonstra cortesia ou respeito pela pessoa a quem nos dirigimos;
  • Sonkeigo - que demonstra respeito pelo sujeito da frase, normalmente quando este pertence ao círculo exterior;
  • Kensongo - que demonstra humildade a respeito do sujeito da frase, normalmente pertencente ao círculo interior.

O teineigo é o mais simples e caracteriza-se apenas pela utilização do verbo final da frase na sua forma "-masu".  Se a minha mulher não (quiser) beber cerveja e o o meu interlocutor lhe  oferecer esta bebida eu disser "Kanai ga biiru nomanai." utilizando a forma corrente do verbo beber "nomu" mostro uma certa proximidade em relação à pessoa a quem me dirijo, enquanto que se usar o verbo na forma "-masu" dizendo "Kanai ga biiru wo nomimasen." mostro cortesia e respeito pelo interlocutor. 

 

Se eu quiser frisar a distância que me separa do meu interlocutor utilizarei então kensongo, pois o sujeito da frase pertence ao meu círculo interior e direi "Kanai ga biiru wo itadakimasen." (Itadakemasen seria mais cortês) usando a forma humilde "itadaku" do verbo beber "nomu".  Esta distância existe socialmente quando nos dirigimos a um estranho o a uma pessoa de satus social elevado.  

 

Se a situação for inversa e eu perguntar ao meu interlocutor se a sua esposa bebe cerveja deverei utilizar sonkeigo pois o sujeito da frase pertence agora ao meu círculo exterior e direi "Okusama ga biiru wo o'nomi ni narimasu ka."  recorrendo à forma honorífica "o'nomi ni naru" do mesmo verbo beber "nomu".

 

A utilização hábil destas formas pode ser muito útil quando por exemplo não nos recordamos do nome do nosso interlocutor.  Se eu quiser perguntar a um conhecido cujo nome esqueci se bebe cerveja tenderei a dizer "Anata wa biiru wo nomimasu ka?" .  Ora a utilização do pronome pessoal "anata" (tu; você) implica uma certa proximidade que pode não existir e será então inapropriada e reveladora do embaraçoso esquecimento.  Não fora a salvação do keigo teria de optar pela utilização da forma extremamente honorífica do referido pronome pessoal "o'takusama" que seria normalmente exagerada e atraiçoaria na mesma o esquecimento.  Usando keigo perguntarei apenas "Biiru wo meshiagarimasu ka." omitindo o sujeito pois, sendo o verbo "meshiagaru" uma forma honorífica, o sujeito só pode pertencer ao círculo exterior e será forçosamente o meu interlocutor.

 

 Estava um dia em reunião com dois elementos de uma empresa japonesa quando a hora de almoço se aproximou.  Perguntou-me um deles se eu almoçava com eles:  "Lebre san wa gohan wo meshiagarimasu ka?" (algo como digna-se a honoravelmente a comer a sua honorável refeição). Quando respondi que sim, com todo o gosto voltou-se para o colega e disse: "ja, meshi kuou", algo como "Bem, vamos aos morfes".  O japonês pode ser desconcertante e as diferenças de tratamento abissais.  :-) 

 

Círculos, sempre círculos.... o interior e o exterior.

 

publicado por Jaime Lebre às 10:59

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