Algumas notas sobre as peculiariedades da língua japonesa. Penso muitas vezes que aprender japonês me levou a ver o mundo com outros olhos. Quero partilhar aqui um pouco da minha experiência com o meu amado nihongo.

18
Jan 10

 A língua japonesa é fortemente circunstancial.  Água diz-se normalmente "mizu" mas água quente será "o'yuu" (ah aqueles banhos de água tão quentinha) , água fresca de beber será "o'hiya" e num restaurante de comida ocidental podemos pedir "uootaa" o que só os mais avisados conseguirão entender como "water" :-)

 

A escolha do pronome pessoal pelo orador revela de imediato como ele se vê a ele próprio bem como a sua relação com o(s) ouvinte(s).  Por exemplo o pronome pessoal "eu" pode dizer-se em japonês:

  • watakushi
  • watashi
  • atakushi
  • atashi
  • washi
  • boku
  • ore

e se calhar ainda me escaparam alguns :-)

 

"Watakushi" é extremamente formal e pode ser usado tanto por mulheres como homens.  A sua escolha reflecte grande formalidade e respeito pelo ouvinte.  Ainda algo formal mas muito mais corrente temos "watashi" que também pode ser usado tanto por homens como mulheres.  

 

As mulheres, com o seu linguajar mais suave, podem optar por "atashi" o que reflecte logo um certo grau de amizade e proximidade com o ouvinte, embora não necessariamente intimidade. A escolha de "atakushi" é um verdadeiro malabarismo linguístico pois reflecte respeito na escolha da forma longa mas ao mesmo tempo uma certa proximidade que nasce da simplificação da primeira sílaba.  

 

Mas o uso de "washi" é que me surpreendeu muito a primeira vez que o ouvi. "Washi wakaran" dizia o meu chefe.  Foi uma situação bastante irónica pois eu não entendi que ele estava a dizer  "não entendo".  "Watashi ga wakarimasen" ou "watashi ga wakaranai" serão as formas "standard" de "washi wakaran" e eu não percebi o que o meu chefe queria dizer.  Curiosamente ele estava não só a dizer que não entendia como também, talvez, a chamar-me burro :-) pois a escolha de "washi" equivale a algo como puxar dos galões, dizer algo como "este eu, homem de idade e respeito" com um cheirinho de "acima dos da tua laia".  "Washi" é usado exclusivamente por homens já de uma idade respeitável.  Nunca ouvi este pronome na boca de ninguém com menos de 45 anos.

 

"Boku é o que mais correntemente se ouve na conversa entre amigos.  Tem uma certa conotação de "mimo" pois é o "eu" das crianças masculinas.  Quando nos dirigimos a rapazes na idade em que começam a falar dizemos "como está o boku-chan" como quem diz "e como vai o eu". É usado exclusivamente por homens, mas curiosamente a minha filha mais velha usava-o com frequência sendo sempre corrigida pela mãe :-)

 

"Ore" é o "eu" dos machões.  Entre amigos podemos optar por "boku" quando queremos ser mais congeniais ou "ore" quando queremos vincar a nossa posição. Em ambiente formal ou com estranhos o uso deste pronome é seguramente pouco educado e pode ser tomado como um insulto.  De uso estritamente vedado às mulheres.

 

Posto isto, eu fico-me hoje por aqui.  E felizmente o nosso sortido de "eus" permite-me não ter de pensar qual deles escolher :-)

 

 

 

 

publicado por Jaime Lebre às 15:29

 A minha paixão pela língua japonesa nasceu no princípio da década de 80.  Por mero acaso, ao ler um livro ao qual não atribuo grande valor afora ter-me despertado a apetência por esta língua maravilhosa.  

 

Não encontrei na altura quem ensinasse japonês pelo que não tive outro remédio senão estudar por mim.  Levei 4 anos a conseguir trocar algumas palavras com um japonês.  Lembro-me que esta primeira experiência de uso desta língua me deixou exausto e com uma fortíssima dor de cabeça :-) Outros tempos.

 

Acabei por criar laços com a comunidade japonesa em Portugal pelo que os meus anos de estudo deram finalmente os seus frutos.  Dois anos passados fui para o Japão onde durante 18 meses não fiz mais nada senão estudar a língua.  Por lá fiquei ainda uns largos anos durante os quais a língua japonesa era a que usava em casa, no escritório e na rua :-)  Falar português era uma experiência ocasional que chegou mesmo por vezes a ser rara.

 

Estudei muito o japonês primeiro por livros escritos em inglês e mais tarde, quando os meus conhecimentos dos caracteres japoneses mo permitiram, comecei a usar gramáticas e outros livros escritos em japonês.  Sempre me ficou a impressão que o ensino da língua japonesa a estrangeiros, pelo menos a ocidentais, peca por tentar encaixar esta língua nos moldes das línguas ocidentais.  As conjugações verbais são um exemplo flagrante disso: as gramáticas escritas em língua japonesa vão pela esquerda e e as escritas em línguas ocidentais vão pela direita. Ou inversamente :-)

 

A título de exemplo, gostaria de citar o caso do "passado" dos verbos japoneses. A grande maioria das gramáticas de língua japonesa escritas para estrangeiros classifica a forma "-ta" do verbo (por exemplo taberu (comer) -> tabeta) como sendo a sua forma de passado. Eu, como possivelmente muitos milhares milhares de estudantes de japonês aceitei esta explicação pelo seu valor facial.

 

Ora, quando lá pelas duas ou três da manhã de uma bela noite eu e um amigo que nos meus tempos de estudante de japonês ficava frequentemente em minha casa nos estávamos a preparar para dormir caíram-me os olhos numa frase que dizia, traduzindo literalmente: 

  • "Quando uma pessoa ficou desempregada não consegue governar a sua vida."

Ora, como é possível usar a forma passado do verbo quando o ficar desempregado está colocada num futuro hipotético?  A frase japonesa significa na verdade "Quando um uma pessoa fica desempregada não consegue governar a sua vida." mas usando a forma dita de passado de "ficar desempregado".  Como é tal possível?  Lembrei-me de procurar nas minhas gramáticas de japonês escritas em japonês para alunos japoneses da escola primária e lá vinha muito claro. A forma "-ta" é um passado ou um "completo" (kanryoukei, em japonês) do verbo.

 

Se pensarmos um pouco damo-nos conta que a maior parte das acções ou mudanças de estado que atingiram o seu termo ocorreram no passado pelo que o "completo" de um verbo tende a ocorrer no passado.  Mas não esquecer; É um "completo", não um passado, e quando nos apercebemos disto entendemos melhor muitas outras coisas que estavam até então confusas na nossa mente.

 

Quando cheguei a esta conclusão o meu amigo estava já a pegar no sono mas, agitado pela descoberta, não resisti a abaná-lo e dizer-lhe que o "passado" não era afinal um passado e que aparecia por vezes até no futuro.  Já meio a dormir ele não aguentou tamanho choque e proibiu-me de lhe voltar a falar sobre japonês :-)) Esperemos que não seja um prenúncio a este blog :-)

 

Bem, poderíamos talvez ficar por aqui mas... o futuro também não é na verdade um futuro mas sim um "probabilístico".  Mas isso ficará para depois.  

 

Quando estudamos japonês temos de pensar, pensar o japonês como chamo a este blog. E quanto melhor entendemos esta língua melhor nos apercebemos que é na verdade extremamente simples, como uma construção Lego que, por muito complicada que aparente ser, é constituída por meia dúzia de tipos diferentes de blocos, qual deles o mais simples.  Na verdade, só quando as minhas filhas começaram a aprender a falar me apercebi quão simples o japonês é.

 

 

Noto que o interesse pela língua japonesa tem vindo a aumentar.  Vou experimentar ir pondo aqui pouco a pouco, de vez em quando :-) algumas reflexões sobre a língua japonesa.

 

E veremos....   :-) 

publicado por Jaime Lebre às 14:11

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