Algumas notas sobre as peculiariedades da língua japonesa. Penso muitas vezes que aprender japonês me levou a ver o mundo com outros olhos. Quero partilhar aqui um pouco da minha experiência com o meu amado nihongo.

18
Jan 10

 A minha paixão pela língua japonesa nasceu no princípio da década de 80.  Por mero acaso, ao ler um livro ao qual não atribuo grande valor afora ter-me despertado a apetência por esta língua maravilhosa.  

 

Não encontrei na altura quem ensinasse japonês pelo que não tive outro remédio senão estudar por mim.  Levei 4 anos a conseguir trocar algumas palavras com um japonês.  Lembro-me que esta primeira experiência de uso desta língua me deixou exausto e com uma fortíssima dor de cabeça :-) Outros tempos.

 

Acabei por criar laços com a comunidade japonesa em Portugal pelo que os meus anos de estudo deram finalmente os seus frutos.  Dois anos passados fui para o Japão onde durante 18 meses não fiz mais nada senão estudar a língua.  Por lá fiquei ainda uns largos anos durante os quais a língua japonesa era a que usava em casa, no escritório e na rua :-)  Falar português era uma experiência ocasional que chegou mesmo por vezes a ser rara.

 

Estudei muito o japonês primeiro por livros escritos em inglês e mais tarde, quando os meus conhecimentos dos caracteres japoneses mo permitiram, comecei a usar gramáticas e outros livros escritos em japonês.  Sempre me ficou a impressão que o ensino da língua japonesa a estrangeiros, pelo menos a ocidentais, peca por tentar encaixar esta língua nos moldes das línguas ocidentais.  As conjugações verbais são um exemplo flagrante disso: as gramáticas escritas em língua japonesa vão pela esquerda e e as escritas em línguas ocidentais vão pela direita. Ou inversamente :-)

 

A título de exemplo, gostaria de citar o caso do "passado" dos verbos japoneses. A grande maioria das gramáticas de língua japonesa escritas para estrangeiros classifica a forma "-ta" do verbo (por exemplo taberu (comer) -> tabeta) como sendo a sua forma de passado. Eu, como possivelmente muitos milhares milhares de estudantes de japonês aceitei esta explicação pelo seu valor facial.

 

Ora, quando lá pelas duas ou três da manhã de uma bela noite eu e um amigo que nos meus tempos de estudante de japonês ficava frequentemente em minha casa nos estávamos a preparar para dormir caíram-me os olhos numa frase que dizia, traduzindo literalmente: 

  • "Quando uma pessoa ficou desempregada não consegue governar a sua vida."

Ora, como é possível usar a forma passado do verbo quando o ficar desempregado está colocada num futuro hipotético?  A frase japonesa significa na verdade "Quando um uma pessoa fica desempregada não consegue governar a sua vida." mas usando a forma dita de passado de "ficar desempregado".  Como é tal possível?  Lembrei-me de procurar nas minhas gramáticas de japonês escritas em japonês para alunos japoneses da escola primária e lá vinha muito claro. A forma "-ta" é um passado ou um "completo" (kanryoukei, em japonês) do verbo.

 

Se pensarmos um pouco damo-nos conta que a maior parte das acções ou mudanças de estado que atingiram o seu termo ocorreram no passado pelo que o "completo" de um verbo tende a ocorrer no passado.  Mas não esquecer; É um "completo", não um passado, e quando nos apercebemos disto entendemos melhor muitas outras coisas que estavam até então confusas na nossa mente.

 

Quando cheguei a esta conclusão o meu amigo estava já a pegar no sono mas, agitado pela descoberta, não resisti a abaná-lo e dizer-lhe que o "passado" não era afinal um passado e que aparecia por vezes até no futuro.  Já meio a dormir ele não aguentou tamanho choque e proibiu-me de lhe voltar a falar sobre japonês :-)) Esperemos que não seja um prenúncio a este blog :-)

 

Bem, poderíamos talvez ficar por aqui mas... o futuro também não é na verdade um futuro mas sim um "probabilístico".  Mas isso ficará para depois.  

 

Quando estudamos japonês temos de pensar, pensar o japonês como chamo a este blog. E quanto melhor entendemos esta língua melhor nos apercebemos que é na verdade extremamente simples, como uma construção Lego que, por muito complicada que aparente ser, é constituída por meia dúzia de tipos diferentes de blocos, qual deles o mais simples.  Na verdade, só quando as minhas filhas começaram a aprender a falar me apercebi quão simples o japonês é.

 

 

Noto que o interesse pela língua japonesa tem vindo a aumentar.  Vou experimentar ir pondo aqui pouco a pouco, de vez em quando :-) algumas reflexões sobre a língua japonesa.

 

E veremos....   :-) 

publicado por Jaime Lebre às 14:11

Janeiro 2010
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9

10
11
12
13
14
15
16

17
22

25
26
27
29
30

31


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

arquivos
2010

mais sobre mim
pesquisar
 
blogs SAPO