Algumas notas sobre as peculiariedades da língua japonesa. Penso muitas vezes que aprender japonês me levou a ver o mundo com outros olhos. Quero partilhar aqui um pouco da minha experiência com o meu amado nihongo.

20
Jan 10

Falei que quando usamos em japonês linguagem honorífica esta exprime respeito ou humildade do círculo interior em relação ao círculo exterior e que a regra de base da linguagem honorífica é que: referimo-nos com respeito quando falamos sobre o círculo exterior e com humildade quando falamos sobre o círculo interior.

 

Mas as coisas complicam-se se tivermos três círculos em questão. Imaginemos que me encontro numa recepção com dois presidentes de duas empresas diferentes.  Em conversa dirigir-me-ei a qualquer deles usando sonkeigo e kensongo conforme o sujeito da frase.  Se contudo tiver encontrado apenas um deles e me estiver a dirigir a este sobre o outro , a utilização de sonkeigo em relação ao presidente ausente pode implicar um insulto ao meu interlocutor.

 

Podem surgir situações muito complexas de grande melindre.  Em reunião de negócios com o presidente de outra companhia falarei sobre o presidente da minha usando kensongo pois estou a falar sobre o círuclo interior.  Mas se o meu presidente estiver presente isto poderá ser uma  falta de cortesia (shitsurei) em relação a este.  Terei de formular a frase por forma a exprimir a humildade do meu presidente (círculo interior) face ao meu interlocutor (círculo exterior) ao mesmo tempo que exprimo uma dose apropriada de respeito em ralação ao meu presidente, menor que a que exprimo em relação ao meu interlocutor (círculo exterior).

 

Um bom exemplo é a forma como o verbo "dizer" é usado.  A forma kensongo (humilde) de "iu" ou "yuu" (dizer) é "mousu".  Assim se eu quiser dizer "Conforme disse o nosso director..." a frase "uchi no shachou ga yutta you ni..." seria bastante rude pois não usa nem teineigo (forma "-masu") nem kensongo (reflectindo humildade do sujeito do círiculo interior).  Se dissesse "uchi no shachou ga iimashita you ni" a frase torna-se polida pelo recurso ao teineigo mas sem qualquer forma de kensongo poderá ser, conforme as circunstâncias, pouco respeitosa.  Se usar então a forma kensongo "uchi no shachou ga moushimashita you ni..." a humildade face ao interlocutor está correcta mas poderá ofender o meu presidente que pus desta forma ao meu nível.  O problema é que, se para elevar o status do meu director face a mim recorrer a sonkeigo e disser "uchi no shachou ga osshaimashita you ni..." (ossharu é a forma de sonkeigo de "iu" ou "yuu") estarei a elevar o meu director a um nível tão elevado como o do meu interlocutor e portanto a ferir o seu status de círiculo exterior. A solução é usar "mousareru",  forma passiva homorífica do kensongo "mousu".  Mostro assim o maior respeito em relação ao círculo exterior com a utilização da forma kensongo "mousu"  ao mesmo que, com a escolha da forma passiva honorífica, exprimo uma dose adequada de respeito também em relação ao meu director .

 

Todos dizem qualquer coisa mas 

  • eu "moushimasu"
  • o meu director "mousaremasu"
  • o meu interlocutor "osshaimasu"

Tudo para 天下が乱れない様に (tenka ga midarenai you ni).....    não perturbar a boa ordem das coisas.

 

Um leitor menos avisado poderá pensar; "Não, este gajo está a exagerar.  Isto na gramática é assim mas na práctica já não se usa nos dia de hoje." A incredulidade é natural mas asseguro que trabalhei algum tempo na área da diplomacia e não foram poucas as vezes em que tive de recorrer a este género de construçõe,s quando por exemplo falava com um Presidente de Cãmara sobre o nosso Embaixador.

 

Só para compor o ramalhete, deixem-me acrescentar que um verbo na sua forma sonkeigo ou kensongo pode estar também ou não na sua forma "-masu" (teineigo).  Por exemplo a forma sonkeigo de "yomu" (ler) será "o'yomi ni naru" e dizer para dizer "O professor lê o jornal todos os dias." em sonkeigo podemos dizer  "Sensei wa mainichi shinbun wo o'yomi ni naru."ou  "Sensei wa mainichi shinbun wo o'yomi ni narimasu.", juntando  nesta última frase a forma de teineigo "-masu" ao sonkeigo "o'yomi ni naru".  No primeiro a forma sonkeigo demonstra respeito pelo professor mas não pelo interlocutor.  Na segunda forma, a frase demonstra além do respeito pelo professor também cortesia para com o interlocutor.  Dois alunos, amigos um do outro, escolheriam a primeira forma se quisessem demonstrar respeito pelo professor (quando uma terceira pessoa próxima do professor está presente, por exemplo) mas dado o seu relacionamento próximo não usarian a forma teineigo "-masu".

 

De notar que na grande maioria dos casos um jovem que acabou de sair da universidade não se sabe exprimir correctamente em linguagem honorífica keigo de uso absolutamente obrigatório quando nos dirigimos a uma audiência.  Um jovem empregado da empresa onde eu estagiava baralhou-se de tal maneira que chegou a levantar coros de gargalhadas.  O pobre ficou cada vez mais confuso até que um "senpai" (colega mais velho) foi em seu socorro, mas não antes de ele já estar vermelhinho que nem um tomate maduro :-)

 

 

publicado por Jaime Lebre às 01:15

4 comentários:
Ohaiou Jaime-san

Gostaria de colocar umas questões que têm a ver com a linguagem honorífica (penso eu). Num anime, vi um adulto dirigir-se a uma rapariginha e perguntar-lhe se poderia tratá-la por Sakura-chan em vez de Sakura-san. Sei que o uso de San é a forma de mostrar respeito comum, se nos dirigirmos a um superior já teriamos que usar Sama. E se percebi bem o chan é usado entre crianças que são amigas ou como uma forma de mostrar um certo carinho. Um pouco penso eu como, por vezes a minha família e amigos mais chegados me tratam por Carlinha em vez de Carla) Estranhei porke pelo que percebi um adulto é considerado superior a uma criança, se bem que no animé a Sakura também ficou surpresa com a questão, portanto poderia ter usado o chan sem a necessidade de pedir autorização? Também gostaria de perceber um pouco melhor até que ponto entre amigos se pode ocultar o san ou não, chamando o amigo só pelo nome.

Doumo arigatou gosaimasu ^^
cNicky a 20 de Janeiro de 2010 às 10:48

Normalmente junta-se "san" ao nome de um adulto com o qual temos um relacionamento normal sem uma proximidade particular. Se quisermos demonstrar um respeito ou formalidade particulares juntamos "sama" em vez de "san". Ainda mais respeito "dono" algo como exmo. sr. e ainda mais "kakka" excelência. Taishi kakka = O ilustríssimo Embaixador.

Tratamos por "kun" (Tarou kun) amigos masculinos próximos, rapazes ou homens em posição inferior. Tratamos por "chan" (Mie chan) bébés,meninas, raparigas ainda muito jovens ou amigas próximas. É preciso um certo cuidado com o uso de "chan" pois pode significar também intimidade pelo que pode dar origem a mal-entendidos. E sim, Carlinha seria Karura chan :-)

Tratar alguém só pelo seu nome chama-se em japonês "yobi sute" e é geralmente um insulto gravíssimo. Só os presos são por norma tratados assim. Contudo, entre marido e mulher, amigos muito muito próximos com uma amizade muito longa e sólida o ou de pais para filhos "yobi sute" pode acontecer.

O "yobi sute" pode ser usado em situações formais quando, dirigindo-nos a alguém do círculo exterior referimos alguém do círculo anterior. Podemos dizer "uchi no Yamashita" (o nosso Yamashita) mas, para evitar eventuais melindres eu preferiria usar antes a posição dessa pessoa dizendo por exemplo "uchi no kachou" (o nosso chefe de secção).

Quanto ao anime, a jovem menina fica surpresa porque, ao perguntar se a pode tratar por chan (o que seria normal) o adulto indica um respeito que ela não esperava. Se no entanto estiver já numa idade claramente púbere terá ficado surpreendida porque não esperava ser alvo das atenções do cavalheiro. Das duas, só vendo conseguiria ser mais preciso.

Não consigo ver o teu comentário :-S penso que respondi a tudo.

Sore ja, ki o tsukete ne karura san.
Jaime Lebre a 20 de Janeiro de 2010 às 11:55

(comentário em português do Brasil)

Achei curiosa a forma "mousareru". Na sua experiência no Japão, ela era muito utilizada? Pergunto isso porque quando pesquisei sobre a forma "mousaremasu", vi que ela é considerada inadequada. Entretanto, uma coisa é a norma da gramática e outra é a língua em uso. As pessoas não viam problema quanto a isso?
SV a 29 de Março de 2011 às 23:42

Minhas desculpas pelo atraso. A forma mousareru é obviamente muito formal mas é usada em circunstâncias que exigem elevado grau de formalidade e nestas não é inadequada. Não é uma palavra que se use de ânimo leve mas se estivermos em reunião com o nosso shachou e o shachou de outra empresa diremos Uchi no shachou ga mousaremashita you ni ...." caso não tenhamos qualquer proximidade com nenhum deles.
Há muitas outras expressões muito elaboradas que seriam inapropriadas em circunstâncias que apenas exijam um grau médio de formalidade. Por exemplo "Sentimo-nos muito honrados com a presença de Sua Exa. o Embaixador" Taishikakka ni araremashite kouei to zonjite orimasu ) usa o raríssimo arareru " forma passiva honorífica do verbo aru ".
Jaime Lebre a 14 de Abril de 2011 às 01:22

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