Algumas notas sobre as peculiariedades da língua japonesa. Penso muitas vezes que aprender japonês me levou a ver o mundo com outros olhos. Quero partilhar aqui um pouco da minha experiência com o meu amado nihongo.

19
Jan 10

 O conceito de linguagem honorífica tende a fazer um pouco de confusão a nós Europeus que nos orgulhamos da nossa tradição de "Liberté, égalité, fraternité".  De algum modo custa-nos aceitar que vamos ter de nos dirigir a alguém usando uma linguagem que implica que o olhamos como nosso superior.  Esta reacção à linguagem honorífica leva a que muitos estrangeiros que estudam e falam Japonês nunca a dominem e tenham relutância em usá-la.  

 

A ideia que quando usamos uma forma honorífica estamos a tratar alguém como nosso superior é algo errada.  As formas honoríficas não definem superior versus inferior mas sim respeito ou humildade do círculo interior em relação ao círculo exterior.  Se por exemplo estiver a falar com um amigo sobre um meu irmão, o meu irmão pertence ao meu círculo interior (minha família) e o meu amigo ao círculo exterior.  Se mais tarde estiver a falar sobre este mesmo amigo a um colega de trabalho, o meu amigo pertencerá agora ao meu círculo interior ou exterior conforme de qual deles eu me quiser aproximar. A regra da linguagem honorífica é que referimo-nos com respeito quando falamos sobre o círculo exterior e com humildade quando falamos sobre o círculo interior.

 

Mas vejamos com mais detalhe. em Japonês há três estilos diferentes de linguagem honorífica (keigo):

  • Teineigo - que demonstra cortesia ou respeito pela pessoa a quem nos dirigimos;
  • Sonkeigo - que demonstra respeito pelo sujeito da frase, normalmente quando este pertence ao círculo exterior;
  • Kensongo - que demonstra humildade a respeito do sujeito da frase, normalmente pertencente ao círculo interior.

O teineigo é o mais simples e caracteriza-se apenas pela utilização do verbo final da frase na sua forma "-masu".  Se a minha mulher não (quiser) beber cerveja e o o meu interlocutor lhe  oferecer esta bebida eu disser "Kanai ga biiru nomanai." utilizando a forma corrente do verbo beber "nomu" mostro uma certa proximidade em relação à pessoa a quem me dirijo, enquanto que se usar o verbo na forma "-masu" dizendo "Kanai ga biiru wo nomimasen." mostro cortesia e respeito pelo interlocutor. 

 

Se eu quiser frisar a distância que me separa do meu interlocutor utilizarei então kensongo, pois o sujeito da frase pertence ao meu círculo interior e direi "Kanai ga biiru wo itadakimasen." (Itadakemasen seria mais cortês) usando a forma humilde "itadaku" do verbo beber "nomu".  Esta distância existe socialmente quando nos dirigimos a um estranho o a uma pessoa de satus social elevado.  

 

Se a situação for inversa e eu perguntar ao meu interlocutor se a sua esposa bebe cerveja deverei utilizar sonkeigo pois o sujeito da frase pertence agora ao meu círculo exterior e direi "Okusama ga biiru wo o'nomi ni narimasu ka."  recorrendo à forma honorífica "o'nomi ni naru" do mesmo verbo beber "nomu".

 

A utilização hábil destas formas pode ser muito útil quando por exemplo não nos recordamos do nome do nosso interlocutor.  Se eu quiser perguntar a um conhecido cujo nome esqueci se bebe cerveja tenderei a dizer "Anata wa biiru wo nomimasu ka?" .  Ora a utilização do pronome pessoal "anata" (tu; você) implica uma certa proximidade que pode não existir e será então inapropriada e reveladora do embaraçoso esquecimento.  Não fora a salvação do keigo teria de optar pela utilização da forma extremamente honorífica do referido pronome pessoal "o'takusama" que seria normalmente exagerada e atraiçoaria na mesma o esquecimento.  Usando keigo perguntarei apenas "Biiru wo meshiagarimasu ka." omitindo o sujeito pois, sendo o verbo "meshiagaru" uma forma honorífica, o sujeito só pode pertencer ao círculo exterior e será forçosamente o meu interlocutor.

 

 Estava um dia em reunião com dois elementos de uma empresa japonesa quando a hora de almoço se aproximou.  Perguntou-me um deles se eu almoçava com eles:  "Lebre san wa gohan wo meshiagarimasu ka?" (algo como digna-se a honoravelmente a comer a sua honorável refeição). Quando respondi que sim, com todo o gosto voltou-se para o colega e disse: "ja, meshi kuou", algo como "Bem, vamos aos morfes".  O japonês pode ser desconcertante e as diferenças de tratamento abissais.  :-) 

 

Círculos, sempre círculos.... o interior e o exterior.

 

publicado por Jaime Lebre às 10:59

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